O tom do filme inaugural de Trapero(um dos cineastas argentinos de maior prestígio nos últimos tempos) é esse: neo-realismo. Aqui não vemos nada de mirabolante: o herói é um homem, apenas, e sua aventura se limita à sobrevivência. A fotografia em preto e branco e o andamento quase documental da narrativa ressaltam ainda mais o estilo. Um belo filme de estreia.
terça-feira, 30 de julho de 2013
Breve comentário: Mundo Grúa
"Mundo Grúa", primeiro filme de Pablo Trapero, traça um retrato cru, realista e singelo da vida da classe operária. Rulo(o ótimo e bonachão Luis Margani) é um cinquentão desempregado que consegue emprego como operador de guindaste numa obra. Ele vive num apartamento simples e bagunçado, junto do filho adolescente. Volta e meia se encontra com os amigos, arranja uma namoradinha e vive das lembranças de sua juventude, quando tocava numa banda de rock de relativo sucesso local(e da supresa dos que descobrem tal fato - "Mas você era tão magrinho!", diz a namorada).
O tom do filme inaugural de Trapero(um dos cineastas argentinos de maior prestígio nos últimos tempos) é esse: neo-realismo. Aqui não vemos nada de mirabolante: o herói é um homem, apenas, e sua aventura se limita à sobrevivência. A fotografia em preto e branco e o andamento quase documental da narrativa ressaltam ainda mais o estilo. Um belo filme de estreia.
O tom do filme inaugural de Trapero(um dos cineastas argentinos de maior prestígio nos últimos tempos) é esse: neo-realismo. Aqui não vemos nada de mirabolante: o herói é um homem, apenas, e sua aventura se limita à sobrevivência. A fotografia em preto e branco e o andamento quase documental da narrativa ressaltam ainda mais o estilo. Um belo filme de estreia.
Os Olhos Sem Rosto
Neste esquecido filme de Georges Franju - um dos fundadores da Cinemateca Francesa - vemos uma curiosa mistura de forma e estilos. Um filme de horror(sem uma gota de sangue, diga-se), com uma atmosfera de fábula e filmado de maneira clássica, rigorosa.
Após um acidente de carro que desfigurou a face de sua querida filha, um cientista(doido, claro) procura desenvolver uma técnica inovadora de reconstrução facial. Dá palestras sobre o tema e é referência no assunto. O ano é 1959, logo, a conotação da coisa toda é de ficção científica. Enquanto isso, sua fiel assistente procura moças ingênuas de pele e olhos claros pelas ruas. Todas servirão para o propósito do cientista - usar seus tecidos para reconstruir o rosto de sua filha - o que ocasiona na morte das moças.
A filha, aliás, vive enclausurada num quarto, usando uma bela e sinistra máscara de boneca, que salienta os expressivos olhos intactos sem face.
Como dizia no início, o grande trunfo do filme é sua condução. Todo esse enredo absurdo é levado num tom de fábula: a princesa melancólica trancada em seu quarto e sua máscara, procurando liberdade e identidade; a governanta de fidelidade canina ao senhor; o pai cientista, pronto para passar por cima de qualquer escrúpulo ou princípio ético para concluir sua maior obra.
É um filme de horror notável, que expôe, através de toda essa camada, as falhas e crueldades humanas. A cena final é magistral. Sinistra e libertadora.
Após um acidente de carro que desfigurou a face de sua querida filha, um cientista(doido, claro) procura desenvolver uma técnica inovadora de reconstrução facial. Dá palestras sobre o tema e é referência no assunto. O ano é 1959, logo, a conotação da coisa toda é de ficção científica. Enquanto isso, sua fiel assistente procura moças ingênuas de pele e olhos claros pelas ruas. Todas servirão para o propósito do cientista - usar seus tecidos para reconstruir o rosto de sua filha - o que ocasiona na morte das moças.
A filha, aliás, vive enclausurada num quarto, usando uma bela e sinistra máscara de boneca, que salienta os expressivos olhos intactos sem face.
Como dizia no início, o grande trunfo do filme é sua condução. Todo esse enredo absurdo é levado num tom de fábula: a princesa melancólica trancada em seu quarto e sua máscara, procurando liberdade e identidade; a governanta de fidelidade canina ao senhor; o pai cientista, pronto para passar por cima de qualquer escrúpulo ou princípio ético para concluir sua maior obra.
É um filme de horror notável, que expôe, através de toda essa camada, as falhas e crueldades humanas. A cena final é magistral. Sinistra e libertadora.
terça-feira, 2 de julho de 2013
O esteta da violência: Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia
Sam Peckinpah era um corpo estranho na Hollywood de sua época. Suas estórias não são agradáveis. Seus personagens, num primeiro olhar, destoam de qualquer ideário moral e libertário daqueles anos, ainda que isso se comprovasse uma meia verdade. Foi acusado de "fascista" pela crítica por seu incômodo - talvez como nunca - "Sob o Domínio do Medo"(1971). Estilizou a violência como ninguém havia feito, servindo de referência para vários diretores e filmes posteriores. Montagem picotada em cenas de tiroteios e assassinatos, closes, câmera lenta, banhos de sangue. Técnicas que são bem ou mal repetidas até hoje.
Não o ajudava muito em sua popularidade ser um conhecido bêbado e encrenqueiro, o que dificultava a produção de seus filmes e o relacionamento com equipe e atores.
"Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia" insere-se nesse contexto. Realizado em 1974 com orçamento muito baixo, foi todo filmado no México, com alguns técnicos e atores locais.
Uma moçoila, filha de um milionário local, fica grávida de um tal de Alfredo Garcia. Uma desonra. O pai estipula um prêmio pela cabeça do sujeito: 1 milhão de dólares.
Uma dupla de caçadores de recompensa começa sua ronda. Num buteco, encontram Benny(o eterno coadjuvante Warren Oates, em raro papel principal), pianista do local, que pensa poder encontrar o alvo. Mas este fica sabendo através da prostituta Elita(Isela Vega) que Alfredo morreu em um acidente de carro.
Para Benny, nada disso atrapalha a busca pela cabeça, estimulada por uma recompensa de U$ 10 mil que os bandidos haviam lhe prometido. Começa então a macabra e bizarra jornada por um interior triste e decrépito em busca da cabeça de Alfredo Garcia.
Elita tinha relações próximas com o falecido, e é amada por Benny. A princípio, não sabe das reais intenções da viagem - e quando descobre, as repudia - mas está nessa apenas porque não tem para onde ir e com quem se consolar. Se sente segura na companhia de Benny.
No meio de toda essa podreira, destaca-se uma cena pueril: o casal, sentado sob uma árvore à beira da estrada, fazendo planos de um futuro feliz, com direito a casamento.
A decadência real das locações é assustadora. Peckinpah não amacia.
A espetacular sequência final remete ao épico massacre que encerra "Meu Ódio Será Sua Herança"(1969), a obra mais conhecida do diretor, que aqui faz muito com pouco.
Um clássico marginal esquecido. Vale demais a conferida.
Não o ajudava muito em sua popularidade ser um conhecido bêbado e encrenqueiro, o que dificultava a produção de seus filmes e o relacionamento com equipe e atores.
"Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia" insere-se nesse contexto. Realizado em 1974 com orçamento muito baixo, foi todo filmado no México, com alguns técnicos e atores locais.
Uma moçoila, filha de um milionário local, fica grávida de um tal de Alfredo Garcia. Uma desonra. O pai estipula um prêmio pela cabeça do sujeito: 1 milhão de dólares.
Uma dupla de caçadores de recompensa começa sua ronda. Num buteco, encontram Benny(o eterno coadjuvante Warren Oates, em raro papel principal), pianista do local, que pensa poder encontrar o alvo. Mas este fica sabendo através da prostituta Elita(Isela Vega) que Alfredo morreu em um acidente de carro.
Para Benny, nada disso atrapalha a busca pela cabeça, estimulada por uma recompensa de U$ 10 mil que os bandidos haviam lhe prometido. Começa então a macabra e bizarra jornada por um interior triste e decrépito em busca da cabeça de Alfredo Garcia.
Elita tinha relações próximas com o falecido, e é amada por Benny. A princípio, não sabe das reais intenções da viagem - e quando descobre, as repudia - mas está nessa apenas porque não tem para onde ir e com quem se consolar. Se sente segura na companhia de Benny.
No meio de toda essa podreira, destaca-se uma cena pueril: o casal, sentado sob uma árvore à beira da estrada, fazendo planos de um futuro feliz, com direito a casamento.
A decadência real das locações é assustadora. Peckinpah não amacia.
A espetacular sequência final remete ao épico massacre que encerra "Meu Ódio Será Sua Herança"(1969), a obra mais conhecida do diretor, que aqui faz muito com pouco.
Um clássico marginal esquecido. Vale demais a conferida.
terça-feira, 4 de junho de 2013
Breve comentário: O Grande Momento\As Neves do Kilimanjaro
O Grande Momento
Primeiro longa-metragem de Roberto Santos, considerado um dos precursores do Cinema Novo, "O Grande Momento" é embebido de neo-realismo. O cenário é o bairro do Brás, São Paulo, 1958.
Gianfrancesco Guarnieri é um rapaz que vai se casar. Rala dia e noite para conseguir pagar os preparativos da festa, igreja, flores, fotografia, terno e a viagem de núpcias para o litoral. A família ajuda no que pode. A maior dificuldade, no entanto, é contar para a noiva que está em apuros e dificuldades financeiras.
Produzido por Nelson Pereira dos Santos, o filme marca as estreias de Guarnieri, Milton Gonçalves e Flavio Migliaccio no cinema.
A cidade é um personagem à parte. Ainda em expansão, o clima de bairro é acolhedor, não se vislumbra a metrópole opressora dos dias de hoje.
Roberto Santos realizou outros filmes notáveis, em especial a ótima adaptação de "A Hora e a Vez de Augusto Matraga", de Guimarães Rosa e "As Cariocas", baseado em contos de Stanislau Ponte Preta. Faleceu em 1987, aos 59 anos.
Gianfrancesco Guarnieri faleceu em 2006, aos 71 anos. Homem importante do Teatro de Arena e figura conhecida da televisão, teve como outro grande momento de destaque no cinema a adaptação de sua aclamada peça "Eles Não Usam Black-tie" por Leon Hirszman, em 1981.
O filme está disponível no YouTube. Minha cena predileta é a última volta de Zeca(Guarnieri) com sua amada bicicleta, que ele teve que se desfazer para ajudar nas contas do casório. A partir do minuto 32:
O cinema humanista de Robert Guédiguian
Em "As Neves do Kilimanjaro"(Les Neiges du Kilimandjaro), Guédiguian imprime muito de seu estilo sem firulas e voltado para as relações humanas.
Michel é um operário e líder sindical. Vive feliz com a esposa e na companhia constante de seus filhos e netos. Ele tem a árdua tarefa de anunciar a demissão de 20 funcionários da fábrica onde trabalha, através de um sorteio, a forma que julgou mais justa para tal. Por solidariedade, coloca seu nome entre os demissionários, e é sorteado. A esposa o compreende, muito dessa atitude reflete o passado que viveram e os ideais que construíram suas vidas.
Porém, uma atitude inesperada e violenta coloca em xeque a maneira como encaram o mundo e as pessoas ao seu redor.
Vejo alguma semelhança no cinema de Guédiguian com o de Eric Rohmer. Principalmente, no gosto pela vida de seus personagens, dando atenção mesmo para as coisas banais.
Guédiguian, filho de pai armeno, sempre declarou que achava engraçado quando colegas o perguntavam o porque de não ter adotado um pseudônimo artístico, em detrimento de seu complicado nome. Ele sempre demonstrou grande orgulho de suas raízes, fato esse que deve mesmo causar estranheza em uma nação que vive dias cada vez mais complicados em sua relação com o estrangeiro.
Ariane Ascaride, sua esposa, é presença quase obrigatória em seus filmes, assim como os atores Jean-Pierre Darroussin e Gérard Meylan. Guédiguian realiza seus "pequenos" filmes com o mesmo pessoal, distante de qualquer movimentação.
Realizado em 2011, este é um filme muito agradável de se ver. O meio metafórico título é extraído de uma popular canção francesa:
Primeiro longa-metragem de Roberto Santos, considerado um dos precursores do Cinema Novo, "O Grande Momento" é embebido de neo-realismo. O cenário é o bairro do Brás, São Paulo, 1958.
Gianfrancesco Guarnieri é um rapaz que vai se casar. Rala dia e noite para conseguir pagar os preparativos da festa, igreja, flores, fotografia, terno e a viagem de núpcias para o litoral. A família ajuda no que pode. A maior dificuldade, no entanto, é contar para a noiva que está em apuros e dificuldades financeiras.
Produzido por Nelson Pereira dos Santos, o filme marca as estreias de Guarnieri, Milton Gonçalves e Flavio Migliaccio no cinema.
A cidade é um personagem à parte. Ainda em expansão, o clima de bairro é acolhedor, não se vislumbra a metrópole opressora dos dias de hoje.
Roberto Santos realizou outros filmes notáveis, em especial a ótima adaptação de "A Hora e a Vez de Augusto Matraga", de Guimarães Rosa e "As Cariocas", baseado em contos de Stanislau Ponte Preta. Faleceu em 1987, aos 59 anos.
Gianfrancesco Guarnieri faleceu em 2006, aos 71 anos. Homem importante do Teatro de Arena e figura conhecida da televisão, teve como outro grande momento de destaque no cinema a adaptação de sua aclamada peça "Eles Não Usam Black-tie" por Leon Hirszman, em 1981.
O filme está disponível no YouTube. Minha cena predileta é a última volta de Zeca(Guarnieri) com sua amada bicicleta, que ele teve que se desfazer para ajudar nas contas do casório. A partir do minuto 32:
O cinema humanista de Robert Guédiguian
Em "As Neves do Kilimanjaro"(Les Neiges du Kilimandjaro), Guédiguian imprime muito de seu estilo sem firulas e voltado para as relações humanas.
Michel é um operário e líder sindical. Vive feliz com a esposa e na companhia constante de seus filhos e netos. Ele tem a árdua tarefa de anunciar a demissão de 20 funcionários da fábrica onde trabalha, através de um sorteio, a forma que julgou mais justa para tal. Por solidariedade, coloca seu nome entre os demissionários, e é sorteado. A esposa o compreende, muito dessa atitude reflete o passado que viveram e os ideais que construíram suas vidas.
Porém, uma atitude inesperada e violenta coloca em xeque a maneira como encaram o mundo e as pessoas ao seu redor.
Vejo alguma semelhança no cinema de Guédiguian com o de Eric Rohmer. Principalmente, no gosto pela vida de seus personagens, dando atenção mesmo para as coisas banais.
Guédiguian, filho de pai armeno, sempre declarou que achava engraçado quando colegas o perguntavam o porque de não ter adotado um pseudônimo artístico, em detrimento de seu complicado nome. Ele sempre demonstrou grande orgulho de suas raízes, fato esse que deve mesmo causar estranheza em uma nação que vive dias cada vez mais complicados em sua relação com o estrangeiro.
Ariane Ascaride, sua esposa, é presença quase obrigatória em seus filmes, assim como os atores Jean-Pierre Darroussin e Gérard Meylan. Guédiguian realiza seus "pequenos" filmes com o mesmo pessoal, distante de qualquer movimentação.
Realizado em 2011, este é um filme muito agradável de se ver. O meio metafórico título é extraído de uma popular canção francesa:
terça-feira, 28 de maio de 2013
Hardcore
A tranquilidade de uma vida supostamente perfeita abalada por uma situação extrema. Que exige uma medida extrema. Esse mote(chavão?) já foi muito explorado pelo cinema americano, sobretudo nos westerns, e porque não, com Charles Bronson e seu desejo de matar, para ficar em dois exemplos.
No entanto, Paul Schrader, na direção de seu segundo filme, vai fundo, penetrando na raiz dessa condição como talvez ninguém tenha feito.
Jake VanDorn(George C. Scott, simplesmente perfeito) é um homem do interior. Vive com a filha em mais uma dessas cidadezinhas dos Estados Unidos. Toca um bem sucedido negócio familiar, convive com as mesmas pessoas de sua comunidade calvinista. Sua vida é norteada por sua crença, pelos preceitos de sua igreja, da qual é um fervoroso adepto. Assim como são todos ao seu redor, que não vivem na "realidade", no mundo perverso das grandes cidades. Quando a filha adolescente desaparece numa excursão de jovens da igreja, o mundo perfeito está prestes a ruir.
Com a inoperância da polícia nas investigações, Jake contrata um detetive particular(Peter Boyle, canastríssimo com sua careca ridícula). Depois de alguns dias, a notícia é devastadora: o detetive acha a filha no rolo de 8mm de um filme pornográfico, vendido por centavos nas esquinas.
A atuação de Scott na sala de um cinema, vendo a nova "atividade" de sua filha sendo revelada, é um marco. Ele é perfeito para esses histrionismos.
O detetive evolui pouco no caso. Começa então a odisséia do religioso pai de família em busca da filhinha perdida pelos puteiros, sex-shops, casas noturnas, bares barra-pesada e todo lugar onde reside a escória de Los Angeles nos anos 70.
Tudo isso parece até ingênuo hoje. O texto e a direção afiadíssima com a atmosfera do ótimo cinema urbano americano da época(o filme é de 1979), mostra que tudo pode ser pior. Qualquer semelhança com a fauna e a flora da podreira de "Taxi Driver"( a fotografia é do mesmo Michael Chapman) não é mera coincidência, claro. Dos bons costumes à podridão, quase como mágica.
Tudo isso parece até ingênuo hoje. O texto e a direção afiadíssima com a atmosfera do ótimo cinema urbano americano da época(o filme é de 1979), mostra que tudo pode ser pior. Qualquer semelhança com a fauna e a flora da podreira de "Taxi Driver"( a fotografia é do mesmo Michael Chapman) não é mera coincidência, claro. Dos bons costumes à podridão, quase como mágica.
A descrição do habitat natural de Van Dorn e sua família não poderia ser mais precisa. Schrader nasceu e foi criado numa comunidade calvinista holandesa de Grand Rapids, no Michigan, a mesma cidade retratada em "Hardcore". Sua libertação não pode ter sido mais prazerosa, imagino.
Destaca-se a também a cena em que o pai, já imerso nas investigações sobre o paradeiro da filha, assiste um "snuff movie" numa sala fedorenta de uma biboca qualquer e não tem outro motivo mais para rezar no momento.
Schrader talvez seja mais conhecido por sua parceria com Martin Scorsese, principalmente pelos roteiros de "Taxi Driver" e "Touro Indomável". Na função de escriba, trabalhou também com Brian De Palma em "Trágica Obsessão" e Sydney Pollack em "Operação Yakuza", dentre outros.
Tem também uma carreira duradoura como realizador. Há de se destacar, por exemplo: "Gigolô Americano", "A Marca da Pantera", o épico "Mishima", "Temporada de Caça" e o mais recente "A Ressurreição de Adam".
Além, é claro, deste "Hardcore", um brilhante e esquecido exemplar daquela que, para muitos, foi a mais inovadora época do cinema americano.
Bonus: Há uma série de videos no Youtube parodiando a famosa cena do personagem de Scott descobrindo as estripulias da filhinha no cinema. São exibidos filmes e clipes musicais péssimos, seguidos da reação do ator. Virou mais uma febre nessa rede.
A Primeira Noite de Tranquilidade(La Prima Notte di Quiete)
Valerio Zurlini ficou conhecido entre seus pares como o "Poeta da Melancolia". De fato, o desencanto lhe era um tema frequente, quando não intrínseco. Zurlini realizou apenas oito longas. Nunca gozou de uma grande popularidade, mas foi revisto como um artesão à altura dos grandes, como Fellini e Antonioni. Seu cinema clássico e minucioso, com imagens exuberantes e completas e que olhava para a trivialidade da vida, não teve espaço para concessões de sucesso popular. Zurlini faleceu em 1982, aos 52 anos. Vinha mal de saúde há tempos, desde a longa e acidentada produção de "O Deserto dos Tártaros"(Il Deserto dei Tartari), adaptação do clássico romance de Dino Buzzati. Seria sua derradeira obra.
Realizado em 1972, "A Primeira Noite de Tranquilidade" diz muito sobre o autor. Um homem anda pela costa de Rimini, cidade do norte da Itália. Se estabelece e consegue emprego em um colégio local, como professor substituto. Pouco se importa com a classe: pede redações enquanto vai comprar jornais na esquina e permite que os alunos fumem durante a aula, a despeito das ordens do diretor. Conhece um bando de desocupados num carteado, uma de suas poucas atividades "extra-curriculares".
O professor é um niilista, se arrastando sem vontade ou ambição por alguma novidade. Um homem culto, sem paciência e disposição para relações maiores que as triviais. Como reflete a negativa em assinar uma espécie de petição dos alunos, de orientação de esquerda: "Para mim, os fascistas e os comunistas são a mesma coisa. Os fascistas são mais cretinos".
É quando aparece Vanina, uma linda aluna, de beleza frágil e dura. Outro corpo perdido no vazio daquele meio, ela mudará a curva dos acontecimentos, sem que faça muito para que isso aconteça.
Uma cena, ambientada em uma boate, diz muito sobre a construção do autor. O professor chega para uma festinha e, cercado de seus novos amigos inúteis, não consegue tirar os olhos de sua Vanina, dançando na pista com o namorado, o playboy local. Os olhares se cruzam, apenas. Fixos e sem demonstração de nada. A construção de cena é perfeita, uma aula.
Há uma cena semelhante em uma obra anterior de Zurlini, "Verão Violento"(Estate Violenta), com Jean-Louis Trintignant e a estonteante Eleonora Rossi Drago. Outro grande filme.
No elenco, destaque óbvio para Alain Delon no papel principal. Seu olhar perdido dá o tom da desesperança "acomodada" do professor. Uma presença sempre forte, além de sua notória beleza, aqui já um tanto madura.
Sonia Petrovna é Vanina, linda, dura e frágil ao mesmo tempo, mergulhada numa existência tão vazia quanto a de seu par.
Há ainda Giancarlo Giannini, um dos grandes do cinema italiano, num papel menor como o desocupado da turma que mais se afeiçoa a Delon. Alida Valli, já veterana, como a mãe de Vanina. E Lea Massari, muito bem como a acompanhante do professor, que o espera todos os dias no quarto alugado, como num cárcere emocional. Eles não se suportam, mas estão presos um ao outro.
A trilha sonora original, a base de jazz, é outro destaque, principalmente quando o professor está se deslocando, nas cenas de transição.
Talvez essa seja a obra que mais sintetiza mesmo o universo desesperançoso, amoral e elegante do Poeta da Melancolia. Um filme fundamental.
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