terça-feira, 2 de julho de 2013

O esteta da violência: Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia

Sam Peckinpah era um corpo estranho na Hollywood de sua época. Suas estórias não são agradáveis. Seus personagens, num primeiro olhar, destoam de qualquer ideário moral e libertário daqueles anos, ainda que isso se comprovasse uma meia verdade. Foi acusado de "fascista" pela crítica por seu incômodo - talvez como nunca - "Sob o Domínio do Medo"(1971). Estilizou a violência como ninguém havia feito, servindo de referência para vários diretores e filmes posteriores. Montagem picotada em cenas de tiroteios e assassinatos, closes, câmera lenta, banhos de sangue. Técnicas que são bem ou mal repetidas até hoje.

Não o ajudava muito em sua popularidade ser um conhecido bêbado e encrenqueiro, o que dificultava a produção de seus filmes e o relacionamento com equipe e atores.

"Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia" insere-se nesse contexto. Realizado em 1974 com orçamento muito baixo, foi todo filmado no México, com alguns técnicos e atores locais.




Uma moçoila, filha de um milionário local, fica grávida de um tal de Alfredo Garcia. Uma desonra. O pai estipula um prêmio pela cabeça do sujeito: 1 milhão de dólares.

Uma dupla de caçadores de recompensa começa sua ronda. Num buteco, encontram Benny(o eterno coadjuvante Warren Oates, em raro papel principal), pianista do local, que pensa poder encontrar o alvo. Mas este fica sabendo através da prostituta Elita(Isela Vega) que Alfredo morreu em um acidente de carro.

Para Benny, nada disso atrapalha a busca pela cabeça, estimulada por uma recompensa de U$ 10 mil que os bandidos haviam lhe prometido. Começa então a macabra e bizarra jornada por um interior triste e decrépito em busca da cabeça de Alfredo Garcia.

Elita tinha relações próximas com o falecido, e é amada por Benny. A princípio, não sabe das reais intenções da viagem - e quando descobre, as repudia - mas está nessa apenas porque não tem para onde ir e com quem se consolar. Se sente segura na companhia de Benny.

No meio de toda essa podreira, destaca-se uma cena pueril: o casal, sentado sob uma árvore à beira da estrada, fazendo planos de um futuro feliz, com direito a casamento.

A decadência real das locações é assustadora. Peckinpah não amacia.

A espetacular sequência final remete ao épico massacre que encerra "Meu Ódio Será Sua Herança"(1969), a obra mais conhecida do diretor, que aqui faz muito com pouco.

Um clássico marginal esquecido. Vale demais a conferida.


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