O Grande Momento
Primeiro longa-metragem de Roberto Santos, considerado um dos precursores do Cinema Novo, "O Grande Momento" é embebido de neo-realismo. O cenário é o bairro do Brás, São Paulo, 1958.
Gianfrancesco Guarnieri é um rapaz que vai se casar. Rala dia e noite para conseguir pagar os preparativos da festa, igreja, flores, fotografia, terno e a viagem de núpcias para o litoral. A família ajuda no que pode. A maior dificuldade, no entanto, é contar para a noiva que está em apuros e dificuldades financeiras.
Produzido por Nelson Pereira dos Santos, o filme marca as estreias de Guarnieri, Milton Gonçalves e Flavio Migliaccio no cinema.
A cidade é um personagem à parte. Ainda em expansão, o clima de bairro é acolhedor, não se vislumbra a metrópole opressora dos dias de hoje.
Roberto Santos realizou outros filmes notáveis, em especial a ótima adaptação de "A Hora e a Vez de Augusto Matraga", de Guimarães Rosa e "As Cariocas", baseado em contos de Stanislau Ponte Preta. Faleceu em 1987, aos 59 anos.
Gianfrancesco Guarnieri faleceu em 2006, aos 71 anos. Homem importante do Teatro de Arena e figura conhecida da televisão, teve como outro grande momento de destaque no cinema a adaptação de sua aclamada peça "Eles Não Usam Black-tie" por Leon Hirszman, em 1981.
O filme está disponível no YouTube. Minha cena predileta é a última volta de Zeca(Guarnieri) com sua amada bicicleta, que ele teve que se desfazer para ajudar nas contas do casório. A partir do minuto 32:
O cinema humanista de Robert Guédiguian
Em "As Neves do Kilimanjaro"(Les Neiges du Kilimandjaro), Guédiguian imprime muito de seu estilo sem firulas e voltado para as relações humanas.
Michel é um operário e líder sindical. Vive feliz com a esposa e na companhia constante de seus filhos e netos. Ele tem a árdua tarefa de anunciar a demissão de 20 funcionários da fábrica onde trabalha, através de um sorteio, a forma que julgou mais justa para tal. Por solidariedade, coloca seu nome entre os demissionários, e é sorteado. A esposa o compreende, muito dessa atitude reflete o passado que viveram e os ideais que construíram suas vidas.
Porém, uma atitude inesperada e violenta coloca em xeque a maneira como encaram o mundo e as pessoas ao seu redor.
Vejo alguma semelhança no cinema de Guédiguian com o de Eric Rohmer. Principalmente, no gosto pela vida de seus personagens, dando atenção mesmo para as coisas banais.
Guédiguian, filho de pai armeno, sempre declarou que achava engraçado quando colegas o perguntavam o porque de não ter adotado um pseudônimo artístico, em detrimento de seu complicado nome. Ele sempre demonstrou grande orgulho de suas raízes, fato esse que deve mesmo causar estranheza em uma nação que vive dias cada vez mais complicados em sua relação com o estrangeiro.
Ariane Ascaride, sua esposa, é presença quase obrigatória em seus filmes, assim como os atores Jean-Pierre Darroussin e Gérard Meylan. Guédiguian realiza seus "pequenos" filmes com o mesmo pessoal, distante de qualquer movimentação.
Realizado em 2011, este é um filme muito agradável de se ver. O meio metafórico título é extraído de uma popular canção francesa: