terça-feira, 28 de maio de 2013
A Primeira Noite de Tranquilidade(La Prima Notte di Quiete)
Valerio Zurlini ficou conhecido entre seus pares como o "Poeta da Melancolia". De fato, o desencanto lhe era um tema frequente, quando não intrínseco. Zurlini realizou apenas oito longas. Nunca gozou de uma grande popularidade, mas foi revisto como um artesão à altura dos grandes, como Fellini e Antonioni. Seu cinema clássico e minucioso, com imagens exuberantes e completas e que olhava para a trivialidade da vida, não teve espaço para concessões de sucesso popular. Zurlini faleceu em 1982, aos 52 anos. Vinha mal de saúde há tempos, desde a longa e acidentada produção de "O Deserto dos Tártaros"(Il Deserto dei Tartari), adaptação do clássico romance de Dino Buzzati. Seria sua derradeira obra.
Realizado em 1972, "A Primeira Noite de Tranquilidade" diz muito sobre o autor. Um homem anda pela costa de Rimini, cidade do norte da Itália. Se estabelece e consegue emprego em um colégio local, como professor substituto. Pouco se importa com a classe: pede redações enquanto vai comprar jornais na esquina e permite que os alunos fumem durante a aula, a despeito das ordens do diretor. Conhece um bando de desocupados num carteado, uma de suas poucas atividades "extra-curriculares".
O professor é um niilista, se arrastando sem vontade ou ambição por alguma novidade. Um homem culto, sem paciência e disposição para relações maiores que as triviais. Como reflete a negativa em assinar uma espécie de petição dos alunos, de orientação de esquerda: "Para mim, os fascistas e os comunistas são a mesma coisa. Os fascistas são mais cretinos".
É quando aparece Vanina, uma linda aluna, de beleza frágil e dura. Outro corpo perdido no vazio daquele meio, ela mudará a curva dos acontecimentos, sem que faça muito para que isso aconteça.
Uma cena, ambientada em uma boate, diz muito sobre a construção do autor. O professor chega para uma festinha e, cercado de seus novos amigos inúteis, não consegue tirar os olhos de sua Vanina, dançando na pista com o namorado, o playboy local. Os olhares se cruzam, apenas. Fixos e sem demonstração de nada. A construção de cena é perfeita, uma aula.
Há uma cena semelhante em uma obra anterior de Zurlini, "Verão Violento"(Estate Violenta), com Jean-Louis Trintignant e a estonteante Eleonora Rossi Drago. Outro grande filme.
No elenco, destaque óbvio para Alain Delon no papel principal. Seu olhar perdido dá o tom da desesperança "acomodada" do professor. Uma presença sempre forte, além de sua notória beleza, aqui já um tanto madura.
Sonia Petrovna é Vanina, linda, dura e frágil ao mesmo tempo, mergulhada numa existência tão vazia quanto a de seu par.
Há ainda Giancarlo Giannini, um dos grandes do cinema italiano, num papel menor como o desocupado da turma que mais se afeiçoa a Delon. Alida Valli, já veterana, como a mãe de Vanina. E Lea Massari, muito bem como a acompanhante do professor, que o espera todos os dias no quarto alugado, como num cárcere emocional. Eles não se suportam, mas estão presos um ao outro.
A trilha sonora original, a base de jazz, é outro destaque, principalmente quando o professor está se deslocando, nas cenas de transição.
Talvez essa seja a obra que mais sintetiza mesmo o universo desesperançoso, amoral e elegante do Poeta da Melancolia. Um filme fundamental.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário