terça-feira, 28 de maio de 2013

Hardcore

A tranquilidade de uma vida supostamente perfeita abalada por uma situação extrema. Que exige uma medida extrema. Esse mote(chavão?) já foi muito explorado pelo cinema americano, sobretudo nos westerns, e porque não, com Charles Bronson e seu desejo de matar, para ficar em dois exemplos.

No entanto, Paul Schrader, na direção de seu segundo filme, vai fundo, penetrando na raiz dessa condição como talvez ninguém tenha feito.






Jake VanDorn(George C. Scott, simplesmente perfeito) é um homem do interior. Vive com a filha em mais uma dessas cidadezinhas dos Estados Unidos. Toca um bem sucedido negócio familiar, convive com as mesmas pessoas de sua comunidade calvinista. Sua vida é norteada por sua crença, pelos preceitos de sua igreja, da qual é um fervoroso adepto. Assim como são todos ao seu redor, que não vivem na "realidade", no mundo perverso das grandes cidades. Quando a filha adolescente desaparece numa excursão de jovens da igreja, o mundo perfeito está prestes a ruir.

Com a inoperância da polícia nas investigações, Jake contrata um detetive particular(Peter Boyle, canastríssimo com sua careca ridícula). Depois de alguns dias, a notícia é devastadora: o detetive acha a filha no rolo de 8mm de um filme pornográfico, vendido por centavos nas esquinas.

A atuação de Scott na sala de um cinema, vendo a nova "atividade" de sua filha sendo revelada, é um marco. Ele é perfeito para esses histrionismos.







O detetive evolui pouco no caso. Começa então a odisséia do religioso pai de família em busca da filhinha perdida pelos puteiros, sex-shops, casas noturnas, bares barra-pesada e todo lugar onde reside a escória de Los Angeles nos anos 70.

Tudo isso parece até ingênuo hoje. O texto e a direção afiadíssima com a atmosfera do ótimo cinema urbano americano da época(o filme é de 1979), mostra que tudo pode ser pior. Qualquer semelhança com a fauna e a flora da podreira de "Taxi Driver"( a fotografia é do mesmo Michael Chapman) não é mera coincidência, claro. Dos bons costumes à podridão, quase como mágica.

A descrição do habitat natural de Van Dorn e sua família não poderia ser mais precisa. Schrader nasceu e foi criado numa comunidade calvinista holandesa de Grand Rapids, no Michigan, a mesma cidade retratada em "Hardcore". Sua libertação não pode ter sido mais prazerosa, imagino.

Destaca-se a também a cena em que o pai, já imerso nas investigações sobre o paradeiro da filha, assiste um "snuff movie" numa sala fedorenta de uma biboca qualquer e não tem outro motivo mais para rezar no momento.

Schrader talvez seja mais conhecido por sua parceria com Martin Scorsese, principalmente pelos roteiros de "Taxi Driver" e "Touro Indomável". Na função de escriba, trabalhou também com Brian De Palma em "Trágica Obsessão" e Sydney Pollack em "Operação Yakuza", dentre outros.

Tem também uma carreira duradoura como realizador. Há de se destacar, por exemplo: "Gigolô Americano", "A Marca da Pantera", o épico "Mishima", "Temporada de Caça" e o mais recente "A Ressurreição de Adam". 

Além, é claro, deste "Hardcore", um brilhante e esquecido exemplar daquela que, para muitos, foi a mais inovadora época do cinema americano.

Bonus: Há uma série de videos no Youtube parodiando a famosa cena do personagem de Scott descobrindo as estripulias da filhinha no cinema. São exibidos filmes e clipes musicais péssimos, seguidos da reação do ator. Virou mais uma febre nessa rede.













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