No entanto, Paul Schrader, na direção de seu segundo filme, vai fundo, penetrando na raiz dessa condição como talvez ninguém tenha feito.
Jake VanDorn(George C. Scott, simplesmente perfeito) é um homem do interior. Vive com a filha em mais uma dessas cidadezinhas dos Estados Unidos. Toca um bem sucedido negócio familiar, convive com as mesmas pessoas de sua comunidade calvinista. Sua vida é norteada por sua crença, pelos preceitos de sua igreja, da qual é um fervoroso adepto. Assim como são todos ao seu redor, que não vivem na "realidade", no mundo perverso das grandes cidades. Quando a filha adolescente desaparece numa excursão de jovens da igreja, o mundo perfeito está prestes a ruir.
Com a inoperância da polícia nas investigações, Jake contrata um detetive particular(Peter Boyle, canastríssimo com sua careca ridícula). Depois de alguns dias, a notícia é devastadora: o detetive acha a filha no rolo de 8mm de um filme pornográfico, vendido por centavos nas esquinas.
A atuação de Scott na sala de um cinema, vendo a nova "atividade" de sua filha sendo revelada, é um marco. Ele é perfeito para esses histrionismos.
O detetive evolui pouco no caso. Começa então a odisséia do religioso pai de família em busca da filhinha perdida pelos puteiros, sex-shops, casas noturnas, bares barra-pesada e todo lugar onde reside a escória de Los Angeles nos anos 70.
Tudo isso parece até ingênuo hoje. O texto e a direção afiadíssima com a atmosfera do ótimo cinema urbano americano da época(o filme é de 1979), mostra que tudo pode ser pior. Qualquer semelhança com a fauna e a flora da podreira de "Taxi Driver"( a fotografia é do mesmo Michael Chapman) não é mera coincidência, claro. Dos bons costumes à podridão, quase como mágica.
Tudo isso parece até ingênuo hoje. O texto e a direção afiadíssima com a atmosfera do ótimo cinema urbano americano da época(o filme é de 1979), mostra que tudo pode ser pior. Qualquer semelhança com a fauna e a flora da podreira de "Taxi Driver"( a fotografia é do mesmo Michael Chapman) não é mera coincidência, claro. Dos bons costumes à podridão, quase como mágica.
A descrição do habitat natural de Van Dorn e sua família não poderia ser mais precisa. Schrader nasceu e foi criado numa comunidade calvinista holandesa de Grand Rapids, no Michigan, a mesma cidade retratada em "Hardcore". Sua libertação não pode ter sido mais prazerosa, imagino.
Destaca-se a também a cena em que o pai, já imerso nas investigações sobre o paradeiro da filha, assiste um "snuff movie" numa sala fedorenta de uma biboca qualquer e não tem outro motivo mais para rezar no momento.
Schrader talvez seja mais conhecido por sua parceria com Martin Scorsese, principalmente pelos roteiros de "Taxi Driver" e "Touro Indomável". Na função de escriba, trabalhou também com Brian De Palma em "Trágica Obsessão" e Sydney Pollack em "Operação Yakuza", dentre outros.
Tem também uma carreira duradoura como realizador. Há de se destacar, por exemplo: "Gigolô Americano", "A Marca da Pantera", o épico "Mishima", "Temporada de Caça" e o mais recente "A Ressurreição de Adam".
Além, é claro, deste "Hardcore", um brilhante e esquecido exemplar daquela que, para muitos, foi a mais inovadora época do cinema americano.
Bonus: Há uma série de videos no Youtube parodiando a famosa cena do personagem de Scott descobrindo as estripulias da filhinha no cinema. São exibidos filmes e clipes musicais péssimos, seguidos da reação do ator. Virou mais uma febre nessa rede.

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